Em um movimento que reconfigura o tabuleiro global da inteligência artificial, a OpenAI — criadora do ChatGPT — selou um contrato de US$ 38 bilhões com a Amazon Web Services (AWS). O acordo, anunciado no fim de setembro, marca o início de uma nova era para a empresa de Sam Altman e, ao mesmo tempo, reabre a disputa entre Amazon e Microsoft pelo domínio da infraestrutura que sustenta a IA de fronteira.
O que está em jogo vai muito além de poder computacional. O negócio sinaliza uma ruptura estratégica na relação entre OpenAI e Microsoft, parceiras desde 2019, e inaugura uma fase em que a inteligência artificial deixa de depender de uma única gigante para se tornar um ecossistema multibilionário e descentralizado.

O contrato que mudou o rumo da IA
O acordo firmado entre OpenAI e AWS tem duração de sete anos e prevê acesso imediato a centenas de milhares de GPUs da Nvidia, incluindo os modelos mais avançados — GB200 e GB300 —, que serão usados tanto no treinamento de novos modelos quanto no processamento em larga escala do ChatGPT.
A Amazon deve entregar toda a capacidade contratada até o fim de 2026, consolidando-se como um dos principais alicerces tecnológicos da OpenAI.
O impacto no mercado foi instantâneo: as ações da Amazon subiram 5% após o anúncio, reflexo da percepção de que a empresa recupera terreno em um setor que vinha sendo dominado pela Microsoft e pelo Google.
Mais do que um contrato de infraestrutura, o movimento é estratégico. Ele quebra oficialmente a exclusividade que a Microsoft detinha sobre a OpenAI, uma relação que, desde 2019, envolvia controle preferencial da infraestrutura de nuvem e participação acionária de cerca de 27%.
Agora, a OpenAI se reposiciona como cliente de múltiplas big techs, com compromissos que somam impressionantes US$ 600 bilhões em contratos de nuvem, distribuídos entre Microsoft, Oracle, Google, Broadcom e, agora, a Amazon.
Da dependência à independência
Por trás do acordo, há uma transformação ainda mais profunda: a reestruturação societária da OpenAI.
Em 2025, a empresa se tornou oficialmente uma public benefit corporation (PBC) — um modelo híbrido que combina a natureza de uma fundação sem fins lucrativos com a flexibilidade de uma corporação com fins comerciais.
Essa mudança não apenas desbloqueou a aprovação regulatória em Delaware e na Califórnia, mas também abriu caminho para uma meta ousada: um futuro IPO (oferta pública de ações).
Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou em teleconferência com investidores que o caminho mais provável é a abertura de capital:
“O custo de escalar a IA de fronteira é imenso. Precisamos de parceiros de longo prazo e de uma base financeira sólida para sustentar o avanço.”
A nova estrutura garante à OpenAI maior liberdade operacional — podendo negociar simultaneamente com várias empresas, sem depender de um único provedor — e mantém o controle ético sob o guarda-chuva da OpenAI Foundation, que supervisiona o uso e os riscos da tecnologia.
A fundação ainda planeja destinar US$ 25 bilhões a projetos de saúde e cibersegurança, reafirmando a missão original de desenvolver IA em benefício da humanidade.
A resposta da Microsoft: competir com sua própria criação
A Microsoft, por sua vez, já vinha se preparando para esse afastamento. Desde o início de 2025, a companhia de Satya Nadella acelerou o desenvolvimento de modelos proprietários de IA, como o Phi-4 e a linha MAI (Microsoft Artificial Intelligence), projetados para competir diretamente com os modelos da OpenAI.
Além disso, a empresa iniciou aquisições e parcerias com concorrentes, como a Anthropic, em uma tentativa de diversificar sua base tecnológica e reduzir o risco de dependência da OpenAI.
Com 27% de participação na startup, a Microsoft ainda mantém direitos comerciais sobre tecnologias futuras — especialmente as relacionadas à Inteligência Artificial Geral (AGI), considerada o “Santo Graal” da computação moderna. Esses direitos valem até 2032, com acesso limitado a certas pesquisas até 2030.
Na prática, a Microsoft deixa de ser a “dona da infraestrutura” da OpenAI e passa a ser uma das várias fornecedoras premium de poder computacional, agora competindo pela fatia de um mercado avaliado em US$ 1,4 trilhão em redes, energia e computação.
A corrida pelo domínio da IA e das nuvens
O acordo da OpenAI com a AWS tem impacto direto em uma das batalhas mais intensas da era digital: a guerra das nuvens.
Hoje, a Amazon lidera o mercado global de cloud computing, mas vinha perdendo ritmo para a Azure (Microsoft) e o Google Cloud, especialmente em contratos ligados à inteligência artificial.
Com o novo contrato, a Amazon recupera o protagonismo e reforça sua posição como fornecedora central da infraestrutura de IA generativa, algo essencial para competir em um mercado cada vez mais concentrado em poucas mãos.
Segundo analistas da Bernstein Research, o negócio pode gerar até US$ 5,5 bilhões em receita anual recorrente para a AWS — consolidando a unidade como o motor de crescimento da Amazon na próxima década.
Ao mesmo tempo, a OpenAI ganha fôlego para continuar escalando sua tecnologia, dividindo o risco e ampliando a capacidade de processamento de forma sem precedentes.
A OpenAI como plataforma global e o novo equilíbrio de poder
O acordo marca uma virada: a OpenAI deixa de ser vista apenas como uma empresa de software e passa a atuar como uma das maiores orquestradoras do ecossistema global de IA.
A startup agora arbitra entre provedores, fornecedores e investidores — controlando uma rede de contratos bilionários e acesso privilegiado às GPUs mais avançadas da Nvidia.
Com sua capacidade de atrair e distribuir investimentos massivos, a OpenAI se transforma em um novo tipo de potência digital — uma plataforma que decide, na prática, quais big techs terão assento no cockpit da revolução da IA.
Para Amazon e Microsoft, a disputa não é apenas por contrato. É por relevância estratégica.
Enquanto a AWS busca reafirmar sua dominância na infraestrutura, a Microsoft aposta em consolidação vertical — integrando IA ao ecossistema Windows, Office, GitHub, LinkedIn e Copilot.
O resultado é uma nova era de competição: nuvem contra nuvem, modelo contra modelo, ecossistema contra ecossistema.

O que vem a seguir: IPO e a era da IA corporativa
O novo formato de governança e a expansão dos contratos indicam que a OpenAI está se preparando para um passo ainda maior: abrir seu capital e atrair investidores institucionais em larga escala.
Um IPO da OpenAI não apenas solidificaria sua independência, mas também mudaria a forma como o mercado investe em tecnologia de ponta.
A IA deixaria de ser um campo experimental e se tornaria um ativo financeiro consolidado, com impacto direto em fundos de investimento, mercado de capitais e estratégia corporativa.
Se confirmado, o movimento pode criar o primeiro “trilhão de dólares da IA”, transformando a OpenAI em um pilar financeiro comparável à Tesla, Nvidia e Microsoft — empresas que redefiniram não apenas setores, mas paradigmas econômicos.
O que essa disputa revela
O conflito entre Amazon e Microsoft mostra algo claro: a inteligência artificial é o novo petróleo digital — e o poder está nas mãos de quem controla a infraestrutura que a alimenta.
Enquanto a OpenAI equilibra independência e expansão, as big techs travam uma batalha silenciosa para garantir protagonismo em um mercado que mistura capital intensivo, poder computacional e inovação contínua.
No curto prazo, veremos alianças estratégicas cada vez mais dinâmicas, com empresas adotando um modelo de multi-cloud para evitar dependência.
No longo prazo, o desafio será outro: sustentar a escalabilidade da IA sem comprometer ética, segurança e rentabilidade.

O olhar da Gennesys: onde há revolução, há oportunidade
Para o mercado financeiro e de investimentos, a disputa entre Amazon e Microsoft em torno da OpenAI é mais do que uma guerra tecnológica — é um espelho de como o capital se movimenta em ciclos de inovação.
Cada nova revolução tecnológica — da eletricidade à internet — cria uma janela de oportunidades para empresas, investidores e gestores capazes de antecipar tendências e interpretar movimentos de mercado com clareza.
Na Gennesys, acreditamos que compreender essa dinâmica é essencial para traduzir disrupção em estratégia de crescimento. A tecnologia muda o mundo — mas são as decisões financeiras certas que determinam quem avança com ela.