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20/08/2025

O software devorou o mundo. Agora é a IA que vai devorar o software?

De solução a ameaça: por que a nova geração de IA está abalando as bases do mercado de software – e o que investidores devem observar.

Em 2011, o investidor Marc Andreessen publicou um artigo icônico chamado “Why Software Is Eating the World”, defendendo que o software estava transformando todas as indústrias – de entretenimento à defesa. Mais de uma década depois, essa tese não apenas se confirmou, como passou a dominar a lógica dos mercados.

Mas agora, a revolução tem outro protagonista: a inteligência artificial. E ao contrário do que muitos esperavam, ela não está apenas reforçando o reinado das empresas de software. Para algumas delas, especialmente no modelo SaaS (Software as a Service), a IA pode representar um risco existencial.

Essa é a leitura de analistas de mercado e investidores institucionais que vêm alertando para o início de uma reprecificação generalizada nesse setor. As ações de empresas como Adobe, Salesforce e Monday.com já acumulam perdas significativas em 2025, e o sentimento de mercado aponta que o movimento pode se intensificar.

O alerta dos grandes players

Um dos alertas mais contundentes veio da Berkshire Hathaway, conglomerado liderado por Warren Buffett. Em sua carta aos acionistas, a companhia descreveu o cenário atual como de “considerável incerteza”, apontando que as mudanças em políticas comerciais e a rápida adoção de IA estão tornando difícil prever os impactos operacionais e financeiros para empresas tradicionais de software.

Segundo a Berkshire, o risco não está apenas na concorrência direta com novas startups de IA, mas também na possibilidade de queda na demanda por produtos tradicionais, ruptura na cadeia de suprimentos e mudanças estruturais nos modelos de negócios.

Outro sinal importante veio do próprio Federal Reserve (Fed). Em coletiva recente, o presidente Jerome Powell afirmou que os efeitos das tarifas comerciais – como as promovidas por Trump – estão começando a aparecer nos índices de preços ao consumidor. A inflação e o encarecimento da cadeia de produção digital podem se somar aos riscos já impostos pela inteligência artificial.

 

O impacto direto sobre o modelo SaaS

As empresas de software as a service foram, por muitos anos, as queridinhas do mercado. Seus modelos de receita recorrente, baseados em assinaturas corporativas, ofereciam estabilidade e margens robustas. Isso permitia múltiplos de preço sobre lucro (P/L) elevados, com investidores dispostos a pagar caro por crescimento previsível.

Mas a IA está quebrando essa lógica.

Com ferramentas cada vez mais potentes, baratas e acessíveis, muitas empresas estão percebendo que podem automatizar processos internos — inclusive tarefas anteriormente dependentes de softwares terceirizados. Agentes autônomos de IA, como os desenvolvidos por OpenAI, Anthropic, Mistral e outras, já conseguem substituir ou simplificar parte das funções de plataformas como:

  • CRMs (Salesforce),
  • Software de produtividade (Monday.com),
  • Ferramentas criativas (Adobe).

Segundo o relatório da Melius Research, essa mudança pode ter para o SaaS o mesmo efeito que a nuvem teve sobre os data centers físicos: uma disrupção estrutural. No passado, quem não se adaptou à nuvem — como Dell e HP — viu seus múltiplos derreterem. Agora, a história pode se repetir.

 

Ações sob pressão: o caso Adobe, Salesforce e Monday

A resposta do mercado foi rápida. Adobe, por exemplo, já caiu cerca de 25% em 2025. A empresa, que há anos domina o mercado de design digital, está enfrentando a concorrência de ferramentas de geração de imagens e vídeos baseadas em IA como Runway, Midjourney, Canva e as próprias soluções do Google e da Microsoft.

A Melius Research rebaixou a recomendação da Adobe para “venda”, prevendo que a empresa sofrerá revisões negativas em seus lucros futuros. O preço-alvo da ação foi reduzido de US$ 400 para US$ 310.

A Salesforce, que chegou a desenvolver seu próprio agente de IA (o Agentforce), também não conseguiu convencer o mercado. Suas ações já recuaram mais de 30% no ano, mesmo com declarações otimistas de seu CEO, Marc Benioff, que afirmou que a IA já automatizou 30% a 50% das tarefas internas da companhia.

Já a Monday.com, popular entre empresas que precisam de gestão de tarefas e fluxos de trabalho, viu seu papel despencar 30% após apresentar resultados abaixo do esperado — e foi imediatamente interpretada como uma das primeiras “vítimas” da substituição por IA.

 

Os vencedores dessa nova era

Embora o cenário pareça negativo para o setor de software, há claros vencedores emergentes e investidores atentos já estão fazendo a rotação de portfólio.

As empresas de infraestrutura de IA e computação em nuvem vêm capturando o valor que antes era atribuído às plataformas SaaS. Nomes como Microsoft (Azure), Oracle e Amazon (AWS) viram seus resultados se beneficiar do aumento da demanda por serviços de processamento de IA e armazenamento em nuvem.

Além disso, as empresas que integram IA ao seu core business de forma nativa estão em vantagem. A Salesforce, por exemplo, pode ter chance de reverter a tendência se conseguir mostrar ganhos consistentes com o Agentforce. A Microsoft, que integrou o Copilot ao Office, é um exemplo bem-sucedido de quem adaptou o software à nova lógica da IA.

 

Oportunidade estratégica para o Brasil?

Para o investidor brasileiro, o cenário traz duas reflexões principais:

1. Cuidado com os múltiplos altos demais. Empresas de tecnologia com múltiplos de P/L esticados e sensíveis a disrupções podem sofrer correções abruptas. Isso vale tanto para investimentos diretos no exterior quanto para BDRs negociados na B3.

2. Hora de olhar para infraestrutura e adaptação. Companhias que fornecem infraestrutura digital ou que se posicionam como parceiras estratégicas na transição para IA têm mais chances de capturar valor. Além disso, empresas brasileiras de software que adotarem IA de forma proativa poderão se proteger e até ganhar participação de mercado.

 

Conclusão: não é o fim do software – é o início de um novo ciclo

Apesar das manchetes alarmistas, não estamos assistindo ao “fim do software”, mas sim a uma profunda reorganização do setor. A IA exige que empresas antes confortáveis com sua posição de liderança repensem sua proposta de valor, sua eficiência operacional e sua relação com os clientes.

Para os investidores, o desafio é separar o ruído da oportunidade: identificar quem será capaz de se adaptar e quem será deixado para trás.

Assim como o software engoliu o mundo, agora é a inteligência artificial que está engolindo o próprio software.

E você, está preparado para investir nesse novo ciclo?