As ameaças recentes do presidente norte-americano Donald Trump ao bloco dos BRICS voltaram a colocar o Brasil no centro de um debate geopolítico sensível: até que ponto a integração com países emergentes fortalece nossa economia e onde começam os riscos?
Nos últimos dias, Trump declarou que todos os países-membros do BRICS estariam sujeitos a uma tarifa de 10%, simplesmente por integrarem o grupo. O motivo? Segundo o presidente americano, o BRICS estaria tentando “destruir o dólar” como moeda padrão global, desafiando diretamente os interesses dos EUA.
Em um mundo cada vez mais polarizado, entender os benefícios e as limitações da participação do Brasil no BRICS é essencial para quem investe, empreende ou acompanha os rumos da nossa economia.

O que é o BRICS e por que ele incomoda os EUA?
O BRICS é um bloco formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Nos últimos anos, passou a incluir também países como Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntos, os membros somam cerca de 45% da população mundial e mais de 30% do PIB global em paridade de poder de compra.
O objetivo do grupo é fortalecer a cooperação econômica, política e tecnológica entre países emergentes — criando, inclusive, mecanismos financeiros próprios, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), fundado em 2014, e o debate sobre uma moeda comum para transações internacionais, alternativa ao dólar.
Essa possível “desdolarização” é o ponto central do conflito com os EUA. Para Trump, perder a hegemonia do dólar seria uma ameaça equivalente a “uma guerra mundial”.
Vantagens do BRICS para a economia brasileira
A adesão ao BRICS não é apenas simbólica. Para o Brasil, há vantagens estruturais importantes:
- Diversificação de parceiros comerciais
O BRICS cria uma rede de comércio menos dependente dos países desenvolvidos. Com a ascensão da Ásia, especialmente da China e Índia, o Brasil ganha acesso a mercados em expansão, com potencial de consumo crescente.
Hoje, por exemplo, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, superando os EUA. A venda de commodities como soja, minério de ferro e petróleo é fortemente beneficiada por essa relação.
- Acesso a financiamentos
Por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Brasil já obteve recursos para projetos de infraestrutura e sustentabilidade, com menos exigências do que instituições como FMI ou Banco Mundial.
A linha de crédito do NDB tende a se expandir nos próximos anos, especialmente para projetos de energia renovável, mobilidade urbana e conectividade.
- Alinhamento com o Sul Global
A presença do Brasil no BRICS reforça seu protagonismo geopolítico como porta-voz dos países em desenvolvimento. Isso fortalece sua posição em fóruns multilaterais, como a ONU e o G20.
Além disso, o Brasil tem defendido ativamente uma moeda comum para transações comerciais dentro do bloco, o que poderia diminuir a exposição cambial e os custos de operação com moedas estrangeiras.
Mas quais são os riscos?
Apesar dos benefícios, há desafios relevantes na relação com o BRICS, ainda mais em um cenário de tensões com os EUA.
- Retaliação comercial
A principal ameaça veio direto de Washington. Trump declarou que qualquer país membro do BRICS pode ser penalizado com tarifas de 10% ou mais. Isso afeta exportações brasileiras não apenas para os EUA, mas também para países aliados, como México, Canadá e a União Europeia, que podem seguir o mesmo caminho protecionista.
Tarifas desse tipo já estão sendo aplicadas aos setores de cobre, semicondutores e produtos farmacêuticos, e novas medidas devem ser anunciadas em breve.
- Alinhamento com regimes instáveis
Ao expandir o bloco para países como Irã, Etiópia e Arábia Saudita, o BRICS passa a incluir nações com históricos de instabilidade política ou violações de direitos humanos. Isso pode prejudicar a imagem do Brasil em acordos bilaterais com democracias liberais, especialmente na Europa.
Além disso, há o risco de fragmentação interna no bloco, já que os interesses econômicos e geopolíticos dos membros nem sempre convergem.
- Dolarização ainda é realidade
Embora se fale em moeda própria, o dólar ainda representa mais de 80% das reservas cambiais mundiais e é utilizado em mais de 90% das transações financeiras globais. Tentar romper essa dependência sem uma estratégia clara pode gerar instabilidade.
O comércio exterior brasileiro, por exemplo, é majoritariamente dolarizado. Qualquer tentativa abrupta de substituição exige ajustes complexos no sistema financeiro, contratos e contabilidade das empresas.

Como Trump pressiona e o que o Brasil pode fazer?
A ofensiva de Trump contra o BRICS pode ser vista como parte de uma estratégia de reindustrialização e protecionismo comercial dos EUA, com foco em manter sua liderança monetária e econômica.
Além das tarifas, Trump ameaça adotar tarifas adicionais de até 200% em medicamentos e medidas contra parceiros que negociarem com a China ou o Irã — dois dos principais membros do BRICS.
Em resposta, o Brasil tem mantido uma postura diplomática firme, com Lula defendendo a “soberania dos países do bloco” e a “importância do multilateralismo”.
Contudo, há um dilema: o Brasil também busca acordos comerciais e investimentos com os EUA, que ainda são uma das maiores fontes de capital externo e inovação tecnológica do país.
O desafio, portanto, é equilibrar os dois polos.
E para o investidor brasileiro, o que muda?
Esse cenário de tensão geopolítica reforça a importância da diversificação de portfólio, da proteção cambial e da visão de longo prazo.
Alguns pontos de atenção:
- Exportadoras podem ganhar ou perder competitividade, dependendo do impacto das tarifas;
- Commodities podem oscilar mais, especialmente petróleo, minério de ferro e soja;
- O dólar pode voltar a subir se a instabilidade geopolítica aumentar;
- BDRs e ações estrangeiras podem se tornar alternativas defensivas;
- Empresas com exposição ao mercado interno e boa governança seguem atrativas como porto seguro.
Conclusão: o BRICS é ameaça ou oportunidade?
A participação do Brasil no BRICS não é um jogo de soma zero. Há benefícios claros — especialmente no comércio e no financiamento —, mas também riscos que precisam ser gerenciados com habilidade diplomática e estratégia econômica.
A retórica agressiva de Trump reacende a disputa por protagonismo global e exige que o Brasil se posicione com pragmatismo. O futuro do bloco — e do papel do Brasil nele — dependerá menos de slogans políticos e mais da capacidade de criar oportunidades sustentáveis de crescimento e investimentos.
Em vez de escolher lados, o Brasil pode (e deve) atuar como elo de equilíbrio em um mundo em transformação.